As noites em Angola #2.24

(Pequenos pormenores sem a mínima importância)
Música  
As letras das músicas angolanas são sui generis. São pequenos diálogos com batida. 
Os DaWeasel são venerados cá. O som deste grupo de Almada é alvo das maiores festas quando passa nas discotecas.  Os Angolanos adaptam toda a música brasileira e portuguesa de maior sucesso ao som da kizomba. As músicas que passam nas discotecas não diferem muito das europeias. Apenas colocam mais kizomba, tarrachinha e dança do melindro. 
Os manuais de procedimentos
Como a grande maioria da classe trabalhadora é semi-analfabeta, as organizações apostam imenso na formação dos seus empregados. Como muitas dessas pessoas estão formatadas a funcionar com base numa causa - evento, já apanhei situações muito engraçadas, como:
  • Eu: Queria uma tosta de queijo!
    Angolano: Não tem de queijo! Só mista!
  • Eu: é um batido, s.f.f.
    Angolana: não tem batido
    Eu: então, pode ser um sumo de laranja natural
    Angolana: não tem sumo, quer batido?
    Eu: ??? 
  • Eu: é uma fahita e um sumo.
    Angolana: ao ver-me mexer nas notas não temos troco para sumo. Só para a fahita.
    Eu: mas, se eu pagar tudo com a nota de 1000kwanzas tem que me arranjar troco. 
    Angolana: não, dê-me a de 500 e vá comprar a gasosa ali ao lado.
Futebol
Angolano gosta de futebol. Cá o campeonato chama-se GiraBola mas, acompanham com rigor tudo o que se passa no país ex-colonizador. É enorme a paixão pelo SLB. :(  Os jogos do mundial eram sagrados. Tão sagrados ao ponto de me avisarem que não devia marcar reuniões para horas de jogo.
  • Angolana: Mas queres marcar a reunião para amanhã a essa hora? Será que alguém estará a trabalhar?
    Eu: Porquê é feriado?
    Angolana: Se marcares reunião vai haver maka. Há jogo do mundial.
Estatuto
Recentemente desci de estatuto! Hoje chamaram-me de mulata! Para os negros passar de branco para mulato é baixar de qualidade. Para mim é indiferente! No tempo do Savimbi, uma época hitleriana mas ao contrário, os perseguidos eram os brancos e os mulatos. A raça que deveria sobreviver era a negra!  A negra, negra! Se tivesse vindo a Angola na época do Savimbi, no inverno teria sido queimada dentro de um pneu e no verão teria sido violada e depois morta. Assisti a uma discussão acesa sobre o estado da nação. Que seria desta Angola se Savimbi não tivesse sido traído? Por cá dizem que foi traído e bem traído. Que seria dos brancos e mulatos de Angola? Angola seria um Ruanda? A luta pelo poder entre os partidos MPLA, Unita e FNLA já foi mais sangrenta.
Beleza
Disseram-me que a mulher angolana bonita é de Benguela. Os homens angolanos são lindos mas são lindos/falsos. Sabem como encantar uma mulher. Mas, 'homens pessoas' com pacote todo já não há. Como dizem as minhas camaradas, a crise também já chegou a Angola. Eu como vim cá em trabalho gosto do que vejo.
A Internet
O acesso é lento. Passo imenso tempo a ler os meus rss. Gestão de tempo é algo que cá ganha uma nova dimensão. Só para terem noção, para conseguir resolver o problema do meu ipod, o download do upgrade do Ipod demorou uma noite inteira. Já consegui pô-lo a dar som apesar de não dar imagem. E depois há aqueles casos engraçados, como quando tento aceder ao site da infopedia, sou reencaminhada para a pluraleditores. Faço pesquisa sobre a palavra e sou imediatamente reencaminhada para a página da infopedia com os resultados.
Telemóveis
O meu telemóvel é desbloqueado de operador. O BB foi o anfitrião do cartão SIM angolano. O meu número pessoal passou para um nokia antigo e o da empresa nem se mexeu. Três telemóveis. Andava com três telemóveis e nenhum deles tinha acesso a dados. A satisfação do vício e da dependência da net era só consumida em casa. Antes de sair de Lisboa carreguei o TMN com 50€ e tenho neste momento 8€ de saldo. Poupadinha, não sou? Não!!! Não sei quanto gastei no telemóvel do trabalho. De certeza que devo ter ultrapassado o plafond. Devo receber uma factura em casa para depois colocar em despesas de projecto as chamadas realizadas dentro da VPN empresarial. O número angolano foi o mais usado, para receber chamadas,  para fazer chamadas para números de cá e para enviar sms. E usei o skype. Sou uma mujimbeira / bilhardeira.

As razões do regresso das enxaquecas 
Além das vacinas que tive que levar para poder cá entrar em Maio, tenho que tomar sempre um comprimido por cada semana que cá estou. O Mephaquin. O Mephaquin é um medicamento usado para o tratamento da Malária causada por patogéneos que são resistentes a outros agentes anti-maláricos, para a prevenção (profilaxia) da malária. A rotina de tomar uma vez por semana para a prevenção da malária deve ser iniciada uma semana antes de entrar na região onde a malária é endémica. Após sair de Angola tenho que tomar o comprimido por mais 4 semanas. O comprimido é uma bomba química. Um dos efeitos secundários é a dor de cabeça. Como eu raramente tenho dores de cabeça e tenho sim enxaquecas, acho que elas voltaram porque nos últimos três meses só estive uma semana sem tomar o Mephaquin. 
A pensão  

Na primeira vez que cá estive tive que sair da pensão e ir para um hotel no meio do nada. Desta vez só tive que mudar duas vezes de quarto. Estive no 25, uma semana depois mudei para o 13, uma semana depois mudei para o 24 até hoje.  As reservas são numa folha excel e não sei, sinceramente não sei se é falha na comunicação ou se são eles que procuram sempre ter novos hóspedes, mas a minha reserva esteve inicialmente só até dia 10, depois até dia 30, depois até dia 20, e depois de eu andar com eles a ensinar mais fórmulas no excel, ficou confirmada até dia 23.  
A Língua
Kimbundu é apenas uma das 4 línguas oficiais de Angola.
Ouço sons que me são conhecidos, ouço adaptações da língua portuguesa com os dialectos tribais. Ouvi uma verdadeira preciosidade: 'oh minha caralhíssima'. 
Com o devido respeito pela autora, quando tudo o que escrevi, até ao tópico anterior, desapareceu, disse palavrões e dei por mim a usar a frase da senhora. Consegui recuperar o post e decidi acrescentar o tópico da Língua. A palavra é chique. E angolana adora-se mostrar (mas este assunto seria outro post).

3 comentários:

  1. Estou a gostar muito das tuas reportagens de Angola - e está-me a dar vontade de ir fazer turismo aí!

    e pst, se poderes, quando voltares põe fotos dos panos do Roque, adoro tecidos africanos!

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  2. Combinadíssimo!
    Já os tenho na mala. Tiro no sábado fotos aos panos!

    Irias adorar os panos! Tanta variedade e baratíssimos! 200kwanzas, menos de 2€ um pano!
    Mas, tb os há caros! MAs, de uma qualidade muito superior e com desenhos fabulosos.
    Obrigada pela Visita! Tenho visto o vosso projecto dos 365. ;) Mto bom!
    Jinhos.

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  3. ahah Adorei os diálogos com os senhores do café. Decididamente tenho que ir aí!

    beijinhos e aproveita muito :)

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