Death and Post-Mortem Privacy in the Digital Age #02


Viver num meio pequeno é sempre bom e é sempre mau. 
Como em todos os meios, há o prato da balança dos que respeitam a bolha de privacidade criada e há o prato da balança dos que vivem da dor dos outros, de controlar a vida dos outros, dos que vivem da vivência dos outros, dos que só conseguem contar histórias partindo de premissas falsas. 

Num meio pequeno, se uma casa é invadida, à noite, por bombeiros, e depois invadida por um médico legista e por um aparato policial, as notícias correm depressa. 
De repente todos queriam ver o que se passava e ninguém pensava na dor da família. 
O atrevimento e a ousadia na procura de informação é ilimitado, mesmo às onze da noite, houve até uma senhora, que deve ter sido noutros tempos choradeira, entrou pela casa adentro e destapou o saco onde o meu irmão estava e começou a gritar. A minha cunhada, que herdou com o casamento o nosso temperamento, agarrou na dita senhora e expulsou-a, expulsou-a à séria com direito a braço puxado e empurrão pela porta fora. 

Na manhã do dia seguinte já estávamos todos em casa dos meus pais e durante uma semana essa casa foi o nosso refúgio, o nosso cone of silence, a nossa concha, o nosso mundo. 
Se queríamos espairecer, íamos beber um café a 7km de casa. Se íamos a algum lado, íamos sempre acompanhados. Uma noite chegamos a ter que levar dois carros para ir até à promenade do Funchal, para fazermos uma corridinha.  Fazíamos tudo, no mínimo, aos pares de modo a que um protegesse o outro contra terceiros. 
O meio pequeno queria saber como estávamos a lidar com a morte de um de nós. E nós estávamos a lidar com a vida, sem a presença dele.

O nosso cone of silence nunca foi invadido. Além da família ninguém esteve lá em casa. 


Se a minha família já era conhecida por ser fechada, e guardiã da privacidade, depois deste acontecimento, soube que ficamos conhecidos por sermos controladores por não termos exposto a minha mãe ao funeral do filho, e insensíveis porque depois do funeral tivemos um pequeno convívio familiar e os vizinhos conseguiam ouvir, da rua, o barulho das conversas, dos gritos para a TV (nessa noite houve um Real Madrid - Barcelona), das gargalhadas geradas pelas brincadeiras que fazíamos com os nossos sobrinhos, ou da barulheira do ataque de riso que tivemos quando contei uma situação que tinha acontecido comigo nessa semana quando fui abordada por um rapaz que me fez sinal, quando estava a estacionar o carro perto de casa depois de ter passado a manhã na funerária para perceber que a razão do atraso no funeral era por causa da autópsia, que é obrigatória por causa do seguro de vida do crédito habitação. Pelos gestos que o rapaz fez, julguei que o rapaz queria falar sobre o local onde estava a estacionar, e baixei o vidro para poder falar com ele. E ele, perguntou se podia fazer alguma coisa para nos ajudar, a que respondi: "sim, se o seguro falhar, pode ajudar a minha cunhada a pagar os próximos 10 anos de crédito habitação?" 
Ele ficou a olhar para mim como se olhasse para uma maluca. Coitado teve o azar do dia ao ter-me encontrado naquele momento.


O meu pai disse que a ideia de ajudar no crédito habitação é de génio, que em em vez de dizer "Obrigada, não é preciso", devemos passar a dizer: "Ai sim, preciso que pague uma mensalidade do crédito habitação". E rimo-nos todos... entre minis, frango e bolo do caco, como o meu irmão gostaria que fosse... a continuar a ser normais. 
E a acreditar que a nossa normalidade é uma anormalidade para outros. 





2 comentários:

  1. Lembro-me perfeitamente de, poucos dias depois de a minha mãe morrer, estarmos em volta de uma mesa, poucos, família daquela que nos levou ao colo, a contar anedotas e a rir. A minha mãe adorava contar e ouvir anedotas e aquilo fez-nos mais perto dela. Claro que é estranho, estarmos ali a rir com tanta dor dentro de nós, mas também foi tão bom e tão nós.
    Os outros não sabem. Os outros nunca sabem. Nem importa.

    **
    mariana

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    1. > Os outros não sabem. Os outros nunca sabem. Nem importa.

      Para eles é que sim. Nós limitamo-nos a exteriorizar o sorriso triste.

      M. Obrigada pelo comentário. Jinhos grandes.

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