Caminho dos Pés Descalços


Na noite em que passei horas a conversar com um irmão para regressar à ilha com urgência mal dormi, mal dormimos. Nos dias seguintes quando adormecia acordava logo com o som de um irmão com insónias ou a silhueta do meu pai a tentar arranjar algo para fazer. Cheguei a acordar para verificar se a minha mãe, cheia de calmantes, respirava e estava bem. Todas as horas que passaram desde aquela hora em que ele partiu e recebi a chamada, até à hora em que chegamos a casa depois do funeral, foram feridas que se abriam no coração. 
Momentos recordados, sorrisos espelhados de saudade, o olhar triste para as fotos nas estantes da casa, o riso quando a filha dele fazia alguma asneira, a ilusão de que ele está ali a olhar por ela, a realidade de que ele já não está aqui por ela, a expectativa de que ela nunca esqueça o pai babado que tinha.
E o meu coração aumentava ... de amor por ela, ... de dor por ele, porque o dele falhou, o dele de 
tanto bater por amor, parou.

Numas dessas muitas horas em que o meu coração aumentava a cada batimento, as minhas melhores amigas pegaram em mim e levaram-me a almoçar fora e ao Caminho dos Pés Descalços
Se da primeira vez que lá estive fiz batota em vários trajectos, desta vez nada me pareceu difícil, nada me doeu, nada foi quente demais, nada foi frio demais, nada foi sujo demais. Tudo pareceu-me bem, tudo me fez bem. A dor do coração é maior que qualquer dor física. 

Agradeci o facto de ter amigas como as minhas (S. e O., realmente 26 anos de amizade traduz-se em poucas palavras e muitos gestos) e agradeci o facto de ter a família que tenho.  

Porque a mim só me resta continuar o caminho que ele iniciou, ao ter-me escolhido como madrinha da filha, pisando solo desconhecido, descalça. 


1 comentário:

  1. Porque a mim só me resta continuar o caminho que ele iniciou, ao ter-me escolhido como madrinha da filha, pisando solo desconhecido, descalça.

    >>ai mulher, tu és tão eloquente, que a pessoa nem sabe o que dizer.
    bjs!

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