Kandandu Angola #4.8 e 1/3

4ª viagem e à 9ª semana de trabalho que só tem dois dias volto a Portugal. 
No sábado fui ao Cemitério dos Navios. O Cemitério dos Barcos fica na praia de Santiago, Luanda Norte. A distância ao centro de Luanda é de apenas 20Km. 20Km que demoraram duas horas a fazer. Uma parte por minha culpa porque estava sempre a parar para tirar fotos.
Luanda Norte foi esquecida no tempo. Ou melhor, Luanda Norte está parada no tempo. Depois da antiga localização da feira do Roque começa a verdadeira Luanda. Uma Luanda que não aparece nos postais. Ao ir para Norte observa-se nitidamente a diferença entre a parte rica e a pobre. À esquerda a parte em que apostaram para os cartazes sobre a bela Luanda, as praias. À direita, Musseques e mais Musseques. Os Musseques são grupos de tijolos em cima de tijolos com zinco a fazer de telhado e com mais tijolos a prender o zinco e que tomam a forma de uma casa. 
Nos Musseques não há recolha de lixo, são os próprios habitantes quem queimam o lixo a céu aberto. 
Nos Musseques não há planeamento e ordenamento do território. A construção é à rebeldia e de acordo com os espaços vagos.   
Nos Musseques quando alguém morre não há velório na casa do morto. Os caixões não conseguem sair das paredes da casa ou passar nas mini estradas se fôr colocado na horizontal.  
Nos Musseques fazem-se negócio com tudo. As roupas das ONG são vendidas à porta das casas que ficam à beira da estrada e chamam-se "venda de roupa de fardo".  
Nos Musseques constroem-se à volta dos Imbondeiros. A sabedoria popular diz que quem abater um imbondeiro nunca mais terá sorte na sua vida.   
Nos Musseques descansam-se à sombra dos Imbondeiros.  
Dada a grandeza dos Musseques as distâncias são realizadas por mota. Existem táxis-mota às entradas dos Musseques. A esses táxis-mota chamam-se Kupapata
Nos Musseques a água é fornecida por camiões de água e as mulheres, carregam os bidões de água à cabeça.
Nos Musseques criam-se gado.
Nos Musseques não há planeamento familiar. 
Nos Musseques homem que não seja poligamo é a anedota do grupo.  
Nos Musseques o sexo forte é o feminino. As mulheres angolanas carregam o peso do sustento da vida delas, dos filhos e do marido na cabeça e às costas.
Deixo aqui todo o meu respeito e consideração por estas mulheres. 

Dados da foto: eu
Data: 25-Setembro-2010
Musseque na zona do Cacuaco, Luanda, Angola

Volto a Portugal amanhã porque os trabalhos cá já não justificam a minha presença. Voltarei em breve com mais crónicas sobre Angola.
P.S. - Quando comecei a escrever o meu objectivo era falar sobre a grandeza do cemitério, mas o meu lado mais emotivo foi mais forte que a razão.



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