Do amor e outros Demónios #01


Comprou o carro dos sonhos dela. Mini 1000 de cor vermelha. Ainda nem tinha carta de condução, mas o carro já parava à porta dos recém-casados.
Quando o carro já tinha 15 anos, ela conduziu-o todos os dias durante um mês. Durante esse mês ela substituiu a hora de almoço para visitar o seu mais que tudo.
O percurso demora 45 minutos. Ao chegar ao destino sobe as escadas rumo a ele com um saco com pijamas limpos, o paposeco bem cozido e o Diário de Notícias do dia.
Um beijo, os murmúrios do está tudo bem lá em casa, as questões sobre se há diferenças entre o dia anterior e o momento actual, outro beijo e até amanhã.
Os filhos já são seis. A filha mais velha é a única que a acompanha nestas andanças. Entram no carro, as duas ouvem Barry White (porque ela gosta) ou Abba (porque ele gosta).
Mal falam, não conseguem afastar o fantasma da possibilidade de ele ficar para sempre ausente.
Só param no destino. A urgência do momento assim o exige.
Qualquer minuto no atraso da chegada e no beijo de cumprimento pode adiar o beijo da despedida.

20 anos depois.
O carro foi um prémio que ele recebeu e é branco tal como ele gosta. Neutro mas tempestivo como só ele sabe ser. Ele substitui a hora de almoço para visitar a sua mais que tudo.
Come à pressa a sopa feita pela filha mais velha. A outra filha deixou o saco com as camisas da noite preparado. O Diário de Notícias do dia é inútil, ela não quer ler e é aconselhável não ter acesso a dados que a possam preocupar.
O percurso demora 20 minutos, 25 minutos se parar para tomar café e comprar o tal paposeco bem cozido. Têm gostos semelhantes.
Os filhos são sete. O número perfeito para a criação.
A filha mais velha vai ao lado dele tal como foi ao lado dela noutra época, época que mais parece outra vida. Só os dois no carro, ouve-se os prognósticos da 24ª Jornada da Liga Zon Sagres. Discute-se o facto do Van Basten poder trabalhar em Portugal.
Chegam ao destino, ele sobe logo, afinal já são 36 os anos de casados e isso dá livre trânsito para a poder ver. A filha trata da burocracia e quando chega à enfermaria assiste a uns gestos de carinho da porta, comove-se e vai chorar para o wc. Recompõe-se e regressa para o pé dos seus criadores. Com firmeza muda a roupa dela como se os papeis se tivessem invertido.
Porque qualquer minuto no atraso da chegada e no beijo de cumprimento pode adiar o beijo da despedida.

Depois da visita vão os dois, pai e filha cúmplices ver um jogo de futebol ao estádio. À porta do estádio tem mais pessoas à sua espera. A outra filha, um filho, o genro, uma nora, dois netos e uma neta por nascer.

A família cresce e a matriarca definha-se.

2 comentários: